
Alex Honnold posando com o Taipei 101 ao fundo, em divulgação do Skyscraper Live.
Crédito: Netflix / Tudum (imagem divulgação)
O que foi o projeto “Skyscraper Live”
No fim de janeiro de 2026, Alex Honnold realizou uma escalada sem corda e sem equipamento de proteção no Taipei 101, arranha-céu de 508 metros em Taiwan — ação transmitida ao vivo pela Netflix no especial “Skyscraper Live”.
Segundo a Reuters, o evento aconteceu com permissão oficial da administração do prédio e de autoridades locais, e a ascensão levou cerca de 91 minutos, acompanhada por milhares de espectadores.
A própria Netflix informou que o programa estava originalmente marcado para 23 de janeiro, mas foi adiado por condições climáticas e acabou exibido no dia seguinte (horário dos EUA).

Por que isso virou um debate (e não só um feito)
Honnold já é conhecido por feitos de alto risco, mas aqui existia um ingrediente novo: um “evento de entretenimento” ao vivo, com lógica de audiência, patrocínio e retorno de mídia.
E é aí que começa a pergunta incômoda:
quando uma grande plataforma (e, por tabela, marcas e parceiros) coloca holofote e dinheiro em um risco extremo, isso vira esporte… ou espetáculo?
O Guardian relatou que a transmissão teria aviso de conteúdo e um delay (atraso) de 10 segundos, para permitir corte do sinal em caso de “pior cenário”.

Alex Honnold escalando em Taipei, Taiwan, durante o programa “Skyscraper Live”.
NETFLIX
As questões que marcas grandes precisam encarar (de verdade)
1) Efeito cópia e responsabilidade social
- A campanha inspira ou normaliza um comportamento que pessoas comuns podem tentar imitar?
- A comunicação deixa claro que é uma ação excepcional, com autorização e contexto — ou vende como “qualquer um pode”?
2) Incentivo ao risco (e a escalada da ousadia)
- Se um atleta vira “produto de campanhas” por atos extremos, cria-se um ciclo: cada projeto precisa ser maior que o anterior.
- Quem segura a linha quando o “próximo passo” vira imprudência?
3) Compliance, governança e “dever de cuidado”
- A marca (ou plataforma) fez due diligence de risco, jurídico, permissões e contingências?
- Existe política clara sobre o que pode ou não pode em ações que envolvem risco?
4) Legalidade e espaço urbano
- Foi autorizado? Foi regulado? Houve coordenação com segurança pública?
- Se for “meio cinza”, a marca está recompensando infração e incentivando outros a fazerem o mesmo?
5) Reputação: o que acontece se dá errado?
- Uma tragédia vira um passivo reputacional difícil de reverter — e a internet não perdoa.
- Mesmo com delay/aviso, a percepção pode ser: “transformaram risco de vida em entretenimento”.
6) Coerência com o posicionamento
- Marcas que pregam “segurança”, “bem-estar”, “família” ou “saúde” conseguem sustentar a coerência ao patrocinar risco extremo?
O checklist que eu exigiria antes de associar uma marca a algo assim
Sem entrar em detalhes operacionais (porque não faz sentido incentivar ninguém a copiar), dá pra resumir o “mínimo aceitável” em governança:
- Permissões formais (local + prédio + produção) e documentação auditável.
- Plano de comunicação responsável: aviso claro, contexto, e linguagem que não glamourize “faça você também”.
- Gestão de transmissão: delay, protocolos editoriais e limites do que vai ao ar.
- Análise de impacto (incluindo público jovem e efeito cópia).
- Plano reputacional (crise): mensagem, porta-vozes, decisões pré-aprovadas.
- Cláusulas contratuais que impeçam pressão por “ainda mais extremo”.

Público observa a escalada de Alex Honald no Taipei 101 durante o evento transmitido ao vivo.
NETFLIX.
Então: faz sentido patrocinar?
Dá pra defender os dois lados.
Argumento a favor:
- É um feito esportivo único, com enorme valor cultural e midiático, feito de forma autorizada, e que projeta destino/cidade e a própria escalada para o mundo.
Argumento contra:
- O “ao vivo” e o formato de espetáculo aproximam a ação de um produto de entretenimento onde o risco vira parte do “atrativo”, o que acende alertas éticos — tanto na comunidade quanto fora dela.
Minha síntese: o problema raramente é o atleta existir — é o ecossistema (marcas + mídia + plataforma) decidir como transformar isso em conteúdo, qual narrativa vender e quais limites aceitar.

Alex Honald escalando o Taipei 101, a mais de 400m de altura.
NETFLIX.


